Revelando, imortalizando histórias e talentos
17.7.06

Solteiro, sem parentes, sem profissão, alfabetizado e com antecedentes policiais. Sua internação ocorreu no dia 25 de janeiro de 1939. Diagnóstico: esquizofrenia paranóide. Na sua ficha existem mais duas entradas na Colônia Juliano Moreira - RJ, em 23 agosto 1944 e 14 de abril 1948.

Segundo ele informava, nascera no estado de Sergipe no ano de 1911. Em sua ficha na Colônia observa-se indicações de internações em outros hospitais psiquiátricos como o da Praia Vermelha e do Engenho de Dentro, RJ. A sua produção artística deu-se a partir de 1939, e se encerrou 50 anos depois com seu falecimento de infarto do miocárdio. Durante esse tempo ele viveu na Colônia Juliano Moreira, onde se dedicou fervorosamente à sua produção. Segundo Bispo, fora incubido da missão de recriar, modificar o mundo para ser apresentado a Deus no dia do Juízo Final. Seu trabalho não pode ser separado por fases - é contínuo - mas pode ser organizado segundo características que tornam semelhantes algumas obras. Suas produções artísticas contemporâneas, pode-se observar nos trabalhos de artistas de vanguarda, e principalmente nas produções da década de 60 em diante. As repetições incansáveis, executadas durante anos, com produtos retirados do universo comercial e de cunho industrial representam as principais características minimalistas. Todos os aspectos da industria cultural são assimilados na produção artística de Bispo do Rosario, assim como na Pop Art cujas imagens trabalhadas já se encontravam amplamente difundidas na sociedade de consumo. Produtos, embalagens, vasilhames, tudo que nossa imaginação possa captar e que pode ser encontrado jogado por aí, pelas ruas e esquinas, faz parte da obra de Bispo. É como se a esquizofrenia tivesse sido incorporada no processo artístico-criativo. Arthur Bispo do Rosario utiliza a palavra como ferramenta de trabalho e para expressar imagens e códigos a que os loucos têm acesso, no inconsciente. Bispo, jamais se retraía diante de sua loucura, sempre encontrava subsídios para desenvolver sua obra, fizera de sua doença uma potência criativa, capaz de ser apresentada a qualquer público.

"De que cor é a minha aura?"

Para que alguém o visitasse e conhecesse o seu trabalho, antes era preciso responder a pergunta feita por ele que funcionava como um código de acesso. “De que cor você vê a minha aura?” representa uma pequena encenação na qual Bispo, dirige e sentia-se seguro em cena. Esta não é apenas uma pergunta cuja reposta depende da percepção de quem a responderá, e sim, traduz a natureza misteriosa que envolve Bispo. Ela é, em si mesma, uma representação que articula outra, como uma possibilidade que constitui a liberdade do discurso presente em toda obra. A fala de Bispo corresponde a um ritual no qual, sabendo ou não a resposta, o outro sujeito envolvido nessa comunicação, participa. Uma vez estabelecida a comunicação verbal entre quem pergunta e quem responde é analisada como um signo. A escrita era outro código de linguagem freqüentemente usado pelo artista, quando não faz parte direta da obra - como em rótulos de embalagens, ele mesmo a escreve em seus bordados. Os conteúdos desses escritos são os mais variados possíveis: selecionam pessoas, contam histórias, descrevem lugares.

A Descoberta

A “descoberta” de Bispo do Rosario ocorreu no início da década de 80, quando Frederico Morais ao assistiu a uma reportagem de Samuel Wainer Filho - sobre maus tratos em hospitais psiquiátricos -, no programa Fantástico onde se mencionou o seu trabalho, Wainer Filho ficou interessado em conhecer e se surpreendeu ao ver a obra pessoalmente. As comparações com os trabalhos de Marcel Duchamp foram enevitáveis e demonstram o esforço de inserir Bispo no "sistema" de arte. Seus trabalhos abrem portas misteriosas para as discussões da Arte Contemporânea. Ouvindo vozes do inconsciente, ele inicia a construção de um universo e em suas viagens, em suas lutas o seu cotidiano é retomado com tal intensidade que transborda e dissipa a esfera pessoal. Da vida faz uma imprevista experiência, produzindo com ela, a partir de seus fragmentos, torna-se artista. Bispo nos apresenta imagens da sociedade de consumo que são reaproveitadas dos restos e que em alguns momentos possuem registros que nos remetem a lembranças do interior de Sergipe onde, se acredita, sua crença se formou. [Francisco Martins]

# Reportagem publicada no Jornal Novas Técnicas, versão impressa, em julho de 2006 www.jornalnovastecnicas.com.br

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link da notíciaBy Equipe formasemeios, às 14:29  comentar

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