Revelando, imortalizando histórias e talentos
9.10.08

Padre José Maurício: o Brasil não ouve

José Maurício Nunes Garcia foi o maior músico brasileiro, antes de Carlos Gomes, e isso não significa que esteja aquém de Gomes ou de Villa-Lobos.
 

Este padre negro não muito ortodoxo fez muita música de qualidade. Se é que pode-se falar dessa forma com um padre, ele fez tanta música quanto desejaria fazer filhos, cinco ao total. Sua história é bem conhecida, mas uma coisa é certa: nunca recebeu as honras merecidas como mestre inconteste. E isso já vem desde o tempo do Império. Sem Padre Maurício, muito provavelmente a música brasileira permanecesse apenas como uma das inúmeras regentes no País. Na década de 1940 surgiu um certo nacionalismo que marcaria a música brasileira, e foi aí que o trabalho dele começou a sair do arquivo morto, tanto no Brasil quanto Portugal; de Mariana,MG, a Rio Pardo /RS. O padre foi muito influenciado por Haydn e Mozart e outros do século XVIII e XIX. Visconde de Taunay já havia citado-o, assim como Francisco Manuel da Silva [autor do Hino Nacional e aluno do padre]. Sigismund Neukomm, que aqui aportou com a Família Real [Dom João VI], rendeu elogios ao padre compositor. Outro que o citou foi Manuel de Araújo Porto Alegre, um ex-aluno que disse; ‘Padre José Maurício era um compositor completo. Também compôs muitas modinhas e estão perdidas nos arquivos do mundo’. Um excelente organista, era acostumado aos aplausos, e quando Dom João VI chegou ao Brasil pôde aplaudir um artesão musical tão bom quanto os da Europa. Isso rendera-lhe uma nomeação de 'Mestre da Capela Real'.

Salários atrasados
O padre herdou o gosto musical de seu pai, Scarlatti, um professor de uma princesa da Família Real. Ele teria tudo para se arranjar junto à corte. Mas, se na Europa, muitos músicos lutavam para sair da condição de empregado, não seria ele ainda no Brasil, na Corte portuguesa já comprometida com o colonialismo inglês que seria diferente. Quando Dom João VI voltou para Portugal, o Brasil se tornou independente de Portugal mas não da Inglaterra. Um colega muito próximo do padre, em 1911, o português Marcos Portugal passaria a morar no Brasil e, juntos, sofreram as agruras por viverem em um país endividado. O não pagamento de seus salários por Dom Pedro I, fez tanto Marcos Portugal quanto o padre José Maurício solicitar através de memorando que lhes pagassem em dia.

Oto Lara Resende negou apoio
Seu talento poderia ser comprovado apenas em 'Missa de Réquiem' encenada mais recentemente em 1980 pela Sinfônica Estadual do Rio de Janeiro. Como regente, foi ele quem apresentou a primeira audição da peça de Mozart 'Réquiem', 1819. Era muito exigente com seus alunos, os faziam tocar e cantar 'Staba Mater' e Pièces of Resistance' e as 'Estações' de Haydan. Mas isso mostrava apenas ser um homem atualizado. Mas, ele foi acima de tudo um músico bastante original. 'Ofício para Defunto' escrito em 1816, é uma obra grandiosa para coro, orquestra e clarinetes e foi pouquíssimo executado. Segundo Taunay, a peça foi escrita para exéquias [funeral] de D. Maria I, a mãe de Dom Pedro e também para a própria mãe. Ainda segundo escritos de Taunay, teria sido escrita entre lágrimas. 'Ulisséia' uma outra obra de sua autoria foi encomendada para uma batalha que nunca existiu: a vitória do exército português contra as tropas de Napoleão. A peça foi levada para Portugal, e descoberta quando da elaboração de uma biografia do padre, por Cleofe Person de Matos, a obra encontrava-se em Vila Viçosa, perto de Évora local de veraneio dos Bragança. José Maurício não foi aquilo que se pode chamar de nacionalista, flertou muito com a música européia, mas quando a biografa procurou a embaixada brasileira em Lisboa, para obter documentação em áudio, o então embaixador Oto Lara Resende não dificultou como negou-lhe às informações. Tratando-se de Brasil, nada muito relevante foi feito em sua homenagem. Consta uma outra biografia, esta feita por seu filho, o médico José Maurício Nunes Garcia Júnior. No ano do sesquicentenário, em 1980, a Funarte encomendou vários trabalhos sobre o padre, que faleceu em 1828: na miséria e de uma espécie de esclerose que o impedia de conhecer até o que havia composto. O padre nasceu no Rio de Janeiro, em 22 de setembro de 1767, e faleceu também no Rio, em 18 de abril de 1830.  [Formas&Meios – formasemeio@ig.com.br ]
 

#Reportagem original de Francisco Martins, publicada na versão impressa de www.boston.com  de domingo 12 de outubro.

EDITORIAS:
link da notíciaBy Equipe formasemeios, às 14:47 

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