Revelando, imortalizando histórias e talentos
10.1.09

Seu olhar fixo e distante talvez ligado às memórias quando desafiou Hitler e seus seguidores. Chamada por “Anjo de Hamburgo” não mediu esforços, burlou e descumpriu ordem presidencial para salvar vidas.

 


SÃO PAULO, 22/12 - Aracy Moebius de Carvalho conheceu João Guimarães Rosa, na época cônsul-adjunto do Brasil em Hamburgo, Alemanha, em 1938, e futuro escritor de sucesso no Brasil. Guimarães Rosas já sabia da proteção que ARA oferecia aos judeus, enquanto funcionária da Embaixada do Brasil naquele país. Recém separada do marido, Aracy sentiu-se deslocada no Brasil pois na época mulher separada não era muito bem vista pela sociedade. Foi de seu passeio a casa de uma tia na Alemanha e sua fluência em Inglês, Francês e Alemão que fora contratada pela embaixada, sendo responsável pela emissão de vistos. Estava prestes a estourar a Segunda Guerra e consigo a perseguição nazista aos judeus. Os vistos para entrada no País haviam sido limitados pelo então presidente Getúlio Vargas motivado pelo
rompimento com os alemães. Ela desacatou a autoridade do presidencial e concedeu vistos quase que aleatoriamente aos alemães e judeus facilitando seus embarques ao Brasil. Entre um de seus truques para driblar o cônsul brasileiro era apresentar o passaporte sem a letra "J", que indicava a raça judia. Conseguir atestados de residências falsos também era sua especialidade, mas não aceitava dinheiro ou nada em troca. Era tudo humanitário. O testemunho é de Maria Margarethe Bertel Levy, uma senhora judia de 100 anos, que veio para o Brasil graças a bondade de ARA, como é carinhosamente chamada.

‘Anjo de Hamburgo’

A embaixada brasileira de Hamburgo por um bom tempo foi uma 'festa' para os judeus que procuravam Aracy em período integral para receberem auxílio e assim fugirem dos nazistas. Isso rendeu-lhe dois reconhecimentos: 'Anjo de Hamburgo' como é chamada no exterior e também um bosque leva seu nome em Israel. Por sua bravura em desafiar os nazistas foi a única mulher brasileira convidada para plantar uma árvore no Bosque dos Justos, em Israel, um local criado para homenagear pessoas não-judeus que salvaram vidas judias das perseguições de Hitler e seus seguidores. Também é a única brasileira que tem o nome citado no Museu do Holocausto, em Washington [EUA] e em Israel.

Casamento de mentirinha

Como ambos já haviam se casado uma vez, Aracy e Guimarães Rosas casaram-se em 1947, por procuração na Embaixada do México, no Rio de Janeiro. O casamento não era oficial, e isso dificultaria a indicação para que ambos trabalhassem na mesma embaixada. A embaixada do Equador formulou um convite para ela trabalhar como secretária, mas Aracy preferiu declinar e abandonou a vida diplomática. Em 1948, o então futuro escritor, João Guimarães Rosa foi indicado como conselheiro da Embaixada brasileira em Paris, França, e ao retornarem compraram uma casa em Copacabana, Rio de Janeiro. Nesse período ele escreveu suas obras mais famosas como 'Sagarana", Primeiras Histórias. Para ela, Guimarães Rosas dedicou sua obra mais importante: “Grande Sertão: Veredas". O escritor faleceu em 1967. Aracy de Carvalho completa 100 anos, com um olhar fixo e distante, envolto em suas lembranças. Sofrendo do mal de alzheimer, Aracy muitas vezes não reconhece o filho, Eduardo Tess,79, com quem ela mora há dez anos em São Paulo. Ele é o encarregado de contar as histórias vividas por ela. [Francisco Martins][Foto à direita Revista Época]

 

 

Claude Lévi-Strauss 100 anos


 Dono de um sorriso discreto Lévi-Strauss completa 100 anos no dia 28/11/2008. O último dos grandes pensadores vivos, foi o criador de uma 'nova escola antropológica' e responsável por desmontar bases do colonialismo ocidental. Provavelmente foi superado em alguns aspectos mas a virtude é ter sido redescoberto ainda em vida.

Claude Lévi-Strauss nasceu em Bruxelas, Bélgica, em 28 de novembro de 1908. Filho de Raymond Lévi-Strauss e Emma Lévi, franceses de origem judaica, mudam-se para Paris em 1909. No ano de 1927 ele se escreveu em direito, mas termina o curso de filosofia na Sorbonne. Em 1932 casa-se com Dina Dreyfuss, e em 1933 foi nomeado diretor do Liceu de Lion. Em fevereiro de 1935, embarca para o Brasil e desembarca em Santos[litoral paulista] e passa a viver em São Paulo, na rua Cincinato Braga, 395. Logo assumiria a cadeira de sociologia na Universidade de São Paulo. Não quis renovar o contrato com a universidade, em 1938, para poder realizar sua longa expedição pelo País, de 1935 a 1938.

Brasil
Lévi-Strauss se interessou pela etnografia através de suas viagens ao Paraná e Goiás, onde travou contato com os índios caingangues e os Carajás respectivamente. Em 1936 vai conhecer as tribos Bororós e Caduevos. Já em 1938, para finalizar sua passagem pelo País, realizaria sua grande expedição ao Mato Grosso, e através do Vale Guaporé chegaria até a Amazônia, até então quase inexplorado no Brasil; e voltaria para França logo após, 1939. Para o antropólogo paisagens não são simplesmente visuais, são objetos multissensoriais: Cheiros, cores, e impressões táteis as compõem. Muitas dessas impressões estão na obra literária ‘Tristes Trópicos’ [1955], uma autobiografia narrativa de sua passagem pelo Brasil e ensaio científico sobre os indígenas. Durante os 4 anos que ficou no Brasil percorreu vasta área territorial em busca de experiências direta com as sociedades indígenas, tendo sido encontros essenciais para a antropologia de Lévi-Strauss, consequentemente a antropologia tout court.
Brasil negou-lhe refúgio
O jovem Lévi-Straus não foi reconhecido de imediato no Brasil, mesmo porque nada havia publicado. Passaria a repercutir apenas a partir dos anos 1960 e 1970, sobretudo com os estudos sobre a sociedade gês do Brasil Central. Hoje, vários centros de antropologia do Brasil, tem no pensamento de Lévi-Strauss: contínuo, vivo e atual no sentido de que continua a gerar questões e abordagens. Foi através de sua erudição monumental que Claude Lévi-Straus inseriu seu pensamento ameríndio no horizonte da filosofia do Ocidente.
Considerado um dos mais importantes intelectuais do século XX e responsável pela revolução na antropologia, fruto do contato com os indígenas brasileiros na década de 1930. Tais contatos serviram para mostrar que o pensamento dos selvagem, ao contrário da sugestão, é ativo sutil e minucioso. Em 1939 volta à França e funda o Museu do Homem com as coleções colhidas no Brasil. Também separa-se de Dina Dreyfuss e em 1945 casa-se com Rosie-Marie Ullmo e nasce o filho Laurent.

Mesmo Lévi-Strauss não tendo se refugiado no Brasil, pois o país negou-lhe o visto em 1940, com o advento da invasão Alemão na França, 1941, sua biografia está ligada ao Brasil. Com a negativa, o antropólogo decide buscar refúgio em Nova Iorque, e retornaria para França em 1947. Tanto o Brasil quanto os Estados Unidos da América, tiveram vital importância na obra de Lévi-Strauss, que sem o apoio do projeto Rockefeller de resgate de intelectualidade na Europa, o antropólogo não tivesse sobrevivido à Segunda Guerra Mundial. Foram suas primeiras publicações sobre os índios brasileiros, em Nova Iorque, que o fizeram notar nos EUA e engajaram para que ele entrasse no rol dos intelectuais a serem 'preservados'. Em 1974 toma posse da Academia Francesa, 27 de junho. E em
1982 aposenta-se do collège de France, e no ano de 1985 retorna ao Brasil, após 46 anos.

Algumas obras
Em 1958 publicou Antropologia Estrutural, dedicada a memória de Émile Durkheim [1858-1917] fundador das ciências sociais.
Publicou me 1962 ‘O Totemismo Homem’ e o ‘Pensamento Selvagem’ este último dedicado à memória do francês Maurice Merlou-Ponty [1908-1961].
De 1964 a 1971, publicou os quatro volumes de "Mitológicas".
No ano de 1973 publicou ‘Antropologia Estrutural 2’.
Em 1993 lançou História de Lince livro em que reviu toda sua obra e faz uma defesa contundente do método que sempre utilizou para analisar os mitos.
1994 publicou 'Saudades do Brasil" com fotografias do interior do Pais feitas em 1935 e 38.
Em 1996 publicou Saudades de São Paulo, com fotos realizadas entre 1935 e 1937.
Em 2008 o antropólogo e documentarista Marcelo Fortaleza Flores realiza documentário Trópico da Saudade recém-apresentado em Paris.

Programação Brasil/França
No dia 27/11, haverá leitura comentada sobre trechos de sua obra no Centro Universitário Maria Antônia [11/3255-7182]. O ciclo se encerra em 11/12, com a preleção da professora de antropologia da Universidade de Chicago, Manuela Carneiro da Cunha [Brasileira].
"O Efeito Lévi-Straus' no Brasil e nos EUA, ocorrerá no Instituto de Estudos Brasileiros [xxx11/3091-3199]
França
Colóquio internacional Claude lévi-Strauss 'un Parcours dans le Siècle [o percurso de um século], organizado pelo Collège de France, Paris, no dia 25 .
O Museu Quai Branly promove dia 28/11, uma jornada dedicada ao antropólogo, com exposição de fotos feitas no Brasil nos anos 1930, e em Bangladesh, além de documentários, peças etnográficas e leituras de trechos de sua obra.
 
EDITORIAS:
link da notíciaBy Equipe formasemeios, às 21:13  comentar

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